domingo, 7 de março de 2010

Historiografia: Xico Júnior por ele mesmo



Quando meus avós, Felice Pagot e Ângela De Giusti Pagot, escolheram o Brasil como lugar definitivo para suas vidas, imigrando de uma Itália que vivia convulcionada por guerras, tomada pelos capitalistas selvagens e o povo trabalhador sem terras, sem casas e sem perspectivas de uma vida ao mínimo digna. Assim, em final de julho de 1921, embarcaram no bastimento Garibaldi que os trouxe, do Porto de Gênova até o Porto de Santos, atravessando o Oceano Atlântico, para o que lhes parecia um eldorado, o Brasil, desembarcando em terra brasileiras no dia 09 de agosto de 1921. Exatos oito anos depois, em três de setembro de 1929, se fixavam definitivamente em terras do Rio Grande do Sul, inicialmente na localidade de Montenegro e depois Torino, no interior do então distrito Carlos Barbosa (hoje município), que pertencia ao município de Garibaldi.
Em 11 de outubro de 2009, por ocasião do "I Incontro Della Famiglia Pagot", realizado no Clube Caça e Pesca, em Bento Gonçalves-RS, quando marcava os 88 ANOS DE BRASIL e os 80 ANOS DE RIO GRANDE DO SUL, lencei o livro "PAGOT - La Storia Della Famiglia", que, sem falsa modéstia, é o maior e mais completo documento sobre a história e a trajetória da família, desde a localidade de Gaiarine, província de Treviso, no norte da Itália, passando pelo embarque no Porto de Gênova até atracar no Porto de Santos no dia 09/08/1921, e um slideshow com mais de 350 fotos, documentos originais da Itália e músicas do folclore italiano no Estado.
E foi lá em Garibaldi, a capital do champagne, no sopé do morro onde morava a família Peterlongo, que eu nasci por volta das três horas do dia 30 de junho de 1944, filho de Luiz Pagot e de Bililde Antonia Carlotto Pagot. Na pia batismal e no Cartório de Registros de Nascimentos, para efeitos histórico-familiar recebi o nome de Francisco Antonio Pagot. E hoje, para efeitos oficiais, sou todo codificado.
Meu pai nasceu no dia 17 de setembro de 1915, na localidade de Gaiarine, província de Treviso, região do Vêneto, na Itália e faleceu no dia 04 de outubro de 1995, em Canoas-RS, e minha mãe, filha de Luiz Carlotto e Maria Martinbianco Carlotto, nasceu no município de Farroupilha-RS, no dia 08 de setembro de 1914 e faleceu no dia 14 de junho de 1977, em Canoas-RS. Tiveram quatro filhos: Francisco Antonio, Bruno (* 02/03/1946), Dirceo (* 28/02/1949) e Maria Isabel (* 03/02/1958 - + 06/05/1969), além dos dois filhos de meu pai, que viuvara e que tinha primeiramente casado com Ezimira Mantovani Pagot (* 08/02/1917 - + 07/06/1942), com quem teve dois filhos: Natalina (* 27/12/1937) e Osmar (* 24/01/1942).
Em Garibaldi passei pouco mais de um ano, quando meus pais decidiram se mudar para o interior de Nova Prata, mais precisamente no interior do distrito de São Jorge (hoje município), na localidade chamada de Paiol Queimado, onde meu padrinho de crisma, Ernesto Fábris, que também morava numa bela mansão na Avenida Goethe, em Porto Alegre, era praticamente o dono de quase tudo: campos com plantações de acácias, pinheiros e outras variedades de árvores, que cortava e transformava em madeira no engenho que ficava no centro de Paiol Queimado. Nós moramos em frente à praça de Paiol Queimado, onde localizava-se também a Igreja, a Escola Estadual de 1º Grau Carlos Tarasconi e, de outro lado, a casa de Ernesto Fábris. Lembro que ele tinha um Ford 49, preto - na época, pode-se dizer, era o carro da moda e que só os grã-finos podiam comprar -, e quando nos dava a oportunidade de uma volta sentíamos, nós crianças filhos de pais pobres, uma alegria quase indígena.
Lá minha saudosa e sempre incansável mãe, além das lidas da casa, e de ensinar a ler e a escrever aos filhos (foi com ela que aprendi a escrever e ler as primeiras letras e palavras, assim como meus irmãos e inclusive meu pai) lecionava destemida para as crianças da Escola Estadual de 1º Grau Carlos Tarasconi, enquanto meu pai se ocupava de outras atividades, como trabalhar no comércio e no próprio engenho do meu padrinho.
Dessa fase, também guardadas na memória com viva lembrança, recordo de quando fugíamos de casa, à sorrelfa da nossa sempre preocupada e dedicada mãe e fora do expediente da serraria, e íamos até o engenho andar com o carrinho, que servia para o transporte das madeiras e tábuas, sob os trilhos que ficavam à uma altura de cerca de três metros. Obviamente, jamais passou pela minha cabeça, dos meus irmãos e amigos, o risco que estávamos correndo. Felizmente, brincamos e nada de acidente jamais aconteceu.
De Paiol Queimado fomos para Entre Rios, ainda no interior de São Jorge. Lá meu pai, para dar subsitência à família, instalou um armarinho de secos e molhados na parte térrea. Ou seja, vendia desde tecidos, material de costura e atavios femininos; farinha de milho e trigo, feijão, arroz, açúcar e erva mate, que eram guardados em tulhas (uma grande arca com divisões, para armazenar os diferentes produtos). E até algumas ferramentas básicas e tradicionais para os colonos, como enxadas, pás, ancinhos, serrotes, facões, etc. No sobrado ou primeiro piso, fica a nossa casa, a nossa moradia, que se tinha cesso através de uma escada instalada pelo lado de fora do prédio, provavelmente com cerca de duas dezena de degraus.
Nova mudança. Da loja de miudezas, ainda em Entre Rios, passamos a morar numa casa cercada de hortas com os mais diferentes tipos de produtos hortifrutigranjeiros, desde alface, radici, tomate, batata, milho, etc, além de um potreiro que papai arrendava da família Tibúrcio e onde colocava para pastar as vacas, cabras e cavalos. Tinha uma vaca da raça Zebu (mocha), mas que ninguém se animava aproximar-se. E era a minha corajosa mãe que tirava o leite, até que um dia um indômito bode, que geralmente ficava preso num cercado de madeira medindo cerca de 4 x 4 metros e com paredes de uma altura superior a dois metros, fugiu. E depois de correr atrás do meu irmão mais velho, que o derrubou com uma cabeçada, chegou à estrebaria, onde mamãe estava tirando leite exatamente da vaca Zebu, e deu-lhe uma cabeçada que a deixou com a perna rocha por vários dias e sem poder se movimentar com a destreza normal. Foram precisos 3 ou 4 homens para prender o indomável bode.
Desse tempo lembro com saudades da simpaticíssima família Tibúrcio, e quando lá íamos na véspera do Natal e do Ano Novo para ganhar nossos docinhos com enfeites. Era sagrado nessas datas nossas lembrançinhas adocicadas com açúcar, confeitos e muito carinho e amor. Tímidos, envergonhados e respeitosos, trajando a melhor roupa, ou o traje domingueiro, íamos, eu e meus irmãos, e dizíamos, saudando-os pelo Natal e Ano Novo, num sotaque de gringo italiano bastante acentuado: "bon princípio de l´anno". Tudo era muito simples, muito sincero, muito humano e eu sentia uma alegria tão grande que depois, já morando na cidade grande onde havia, como dizem, a civilização, nunca mais consegui sentir a mesma emoção, a mesma alegria e o mesmo pulsar do coração. Ainda hoje parecem estar vivas equelas imagens românticas dos idos anos de 1950 e 1951.
Pois, nasci em meio ao clima da II Grande Guerra Mundial, que durou de 1939 à setembro de 1945, quando os oriundi no Rio Grande do Sul, tanto italianos como alemães, eram proibidos de escutar rádio, imposição do governo do presidente Getúlio Dornelles Vargas, que vivia um período de ditadura. Assim, quem dos oriundi tivesse um aparelho de rádio, e descoberto pela polícia, o mesmo era logo confiscado. Da II Guerra Mundial participou a tropa de cerca de 25 mil soldados brasileiros, que intregraram a FEB - Força Expedicionária Brasileira, que desembarcaram na região de Monte Cassino, na Itália. Os "pracinhas da FEB", além do feito de tomarem de assalto o Monte Castelo, na Itália, conforme relatou no livro "Histórias de Pracinhas", o jornalista Joel Silveira, então correspondente de guerra de 1944 a 1945, no dia 29/10/1944, os soldados brasileiros, que integravam a FEB, mesmo sob o ataque aéreo dos inimigos e sem temerem os bombadeios, entoaram o Hino Nacional Brasileiro perfilados em local próximo à Catadral de Pisa, Itália.
No ano em que nasci, outro fato marcante foi a portuguesa, mas brasileiríssima de coração e como cantora, Cármen Miranda ter estrelado o filme "Greenwich Village", nos Estados Unidos, e que aqui no Brasil foi exibido com o título de "Serenata Boêmia".


No escaldante fevereiro de 1952, chegávamos em Canoas, onde meus pais abriram o Bar (e restaurante) Ideal, na rua Santos Ferreira, nº 111, onde do início dos anos 40, ou seja de 15 de Janeiro de 1940 até fevereiro de 1952, funcionou a primeira sede da Prefeitura Municipal de Canoas.
(Brenda Lee em Jambalaya - 1965)


O ANO EM QUE NASCI


Pois, nasci em 1944, em pleno inverno e no exato dia em que todos comemoram mais meio ano, ou seja, bem no dia divisor do primeiro com o segundo semestre, e em meio a turbulência da II Grande Guerra Mundial.


Naquele ano, no futebol, a predominância era total do Sport Club Internacional que já existia há 35 anos, cujo time, praticamente invencível, era chamado de "Rolo Compressor". Nessa década o "Rolo Compressor", pois passava por cima de todos os adversários,  e em 1944 conquistava o penta-campeonato gaúcho (1940 a 1944) e no ano seguinte arrebatava mais uma conquista, tornando-se, assim, hexa-campeão gaúcho.


O time que conquistava o até então inédito título vencera o Gre-Nal da decisão por 2 x 1, com gols de Carlitos e Volpi para o Inter, treinado por Orlando Cavadine, e o uruguaio Ramon Castro descantando para o Grêmio, que tinha como treinador Telêmaco Frazão.  O Sport Club Internacional sagrou-se hexa-campeão gaúcho com a seguinte formação: Ivo; Alfeu e Nena; Assis, Ávila e Abigail. Atacantes: Volpi, Tesourinha, Adãozinho, Motorzinho e Carlitos, contra o Grêmio de Júlio; Clarel e Rui; Vinícius, Touguinha e Sanguinetti. No ataque: Bentevi, Bombachudo, Ramon Castro, Ivo Aguiar e Mário, enquanto que Henrique Maia Failace, "o rei do apito", foi o juiz.
S. C. Internacional penta-campeão de 1944 - Em pé: Assis, Nena, Ávila, Abigail, Ivo e Alfeu. Agachados: Tesourinha, Rui, Villalba, Cacino, Pontes e Eliseu. OBS: Volpi, Motorzinhjo, Adãozinho e Carlitos (esse o maior goleador do S. C. Internacional de todos os tempos), participaram da última partida (decisão) que foi o Gre-Nal.
Ancorei em Canoas no escaldante fevereiro de 1952, quando, mais uma vez, o Sport Club Internacional sagrava-se tri-campeão gaúcho (1950 a 1952) e no ano seguinte conquistava o tetra-campeonato. Era o chamado "Rolinho Compressor", também quase imbatível e logo depois chegou, da reserva do Fluminense do Rio de Janeiro, o centroavante Larry Pinto de Farias, que formou um dos mais completos e "inmarcáveis" ataques que o futebol gaúcho já teve. Tanto que, em 1956, quando uma seleção formada só por jogadores gaúchos, jogando com a camisa da CBD - Confederação Brasileira de Desportos, que representopu o Brasil no II Panamericano, jogado do México, sagrando-se campeão invicto, tinha como atacantes quatro jogadores do Inter (Luizinho, Bodinho, Larry e Chinezinho, este se revezava com Raul do S. C. Floriano, de Novo Hamburgo) e apenas um do G. E. Renner, que era o Enio Andrade. E todos retornaram exibindo, sobre a cabeça, o tradicional "sombrero" mexicano. 
Em pé: Oreco, Milton, Florindo, Paulinho Almeida, Odorico e Salvador. Agachados: Luizinho, Jerônimo, Bodinho, Mujica e Canhotinho. O técnico era o Teté (José Francisco Duarte Júnior).
*** Para ampliar as fotos basta UM CLIC sobre as mesmas.

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